Uma nobre arte...
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Mas voltando à vaca fria, dizia eu que acontece muitas vezes sonhar que estou a conversar com uma gaja linda e tal e as coisas a correrem muito bem, eu com a sensação de estar quase a facturar, quando a maldita câmara onírica, sobre a qual o único controlo que pareço ter, é mesmo a cor em que ela filma, resolve fazer um grande, enorme plano da minha própria cara. E de repente apercebo-me da catástrofe, da ruína, da tragédia, da nojeira de um imenso, gigantesco e grotesco macaco verde pendurado dos pelos do meu nariz. E digo verde porque o sacana do cameraman, com certeza, adepto incondicional de Spielberg e da sua lista de Schindler, que como bem se lembram foi todo filmado em preto e branco, excepto quando o realizador pretende que o espectador concentre a sua atenção numa pequenina criança e para isso lhe empresta ás vestes a coloração vermelha, também o mafarrico que dirige os meus sonhos querendo dar especial destaque à minha triste figura, tinge de verde o mostruoso macaco que dependurado das minhas pilosidades nasais parece acenar de forma gozona para o espectador, eu próprio, gritando "já fostes! esta já tu não facturas nem em sonhos". E de repente vejo-me transportado para um qualquer beco sujo, urinando contra a parede e com o dedo enfiado no nariz...
Este tipo de sonho que de vez em quando me assombra, tem como consequência algo que se acabou por transformar num tique nervoso como é o facto de estar sempre a coçar o nariz. Acho que isto sucede por manifesto reconhecimento da minha própria incompetência para, através de um qualquer mimetismo, aprender a dominar a nobre arte de manter sempre limpas as cavidades nasais e sobretudo a sua zona externa. Já me apercebi, empiricamente, que cortar os pelos do nariz resulta em parte, só que os sacanas voltam sempre a crescer e cada vez com mais força, chegando por vezes ao ponto que, por desleixo, o meu nariz pareça possuído por um qualquer aristocrata queirosiano do século XIX, dada as semelhanças com uma farta e repenicada bigodaça.
Será só a mim que este medo me assombra? Que terei de fazer para ser iniciado nessa nobre arte oculta da pirâmide nasal sempre resplandescente? Dadas as minhas origens humildes duvido que algum dia me seja proporcionado o tão almejado acesso a esses segredos ancestrais, mas entretanto sempre vou aprendendo alguma coisa através da observação. O exemplar que fotografei, e que ilustra este post, numa noite qualquer na casa de banho de um famoso estabelecimento de diversão noturna da cidade de Moura, que fica ali para a travessa das cruzes, dá-me algumas indicações preciosas. Um dos grandes mistérios que me assombrava ficou assim um pouco mais clarificado. Numa atmosfera fortemente poluída com fumo de tabaco, partículas em suspensão de perfumes e lacas de qualidade duvidosa, bem como outros gases "pesados" como o metano, como é que uma pessoa com sinusite e rinite alérgica consegue manter umas narinas espectaculares ao longo da noite, de forma a proporcionar a confiança necessária para me abeirar sem medos e entabular uma conversa com alguém do sexo oposto? O segredo, ao contrário do que eu pensava, não está em constantemente coçar o nariz, uma vez que dessa forma nos arriscamos a, em público, desenlearmos o fio de Ariádne, o que é sempre extremamente embaraçoso. O truque é esperarmos pela oportunidade proporcionada por uma ida à casa de banho para mictar e, de forma complementar ou alternada, proceder à meticulosa limpeza das fossas nasais. Esta foto, pequena e no entanto tão esclarecedora, é prova disso. O portador deste belo especimen, soube esperar pacientemente pela altura certa e mesmo confrontado com a inexistência do precioso auxiliar que é o papel higiénico, teve o civismo necessário para o expor numa zona bem visível (no vidro da janela) e simultaneamente bem afastada de possíveis contaminações (leia-se aqui contaminação como o contacto directo com a pele de algum infeliz mais desatento). Obrigado caro anónimo por nos elucidares, a mim e a outros simples mortais, desta forma. Espero que este breve texto não te denuncie perante os teus confrades portadores do segredo das narinas imaculadas e venhas a sofrer por isso qualquer tipo de retaliação.
Salvé companheiro!